O rádio na escola – uma fantástica possibilidade pedagógica

140416_radioescola

As mudanças tecnológicas recentes provocaram uma enorme transformação nas tecnologias comunicacionais. Há apenas alguns anos, sistemas de gravação e difusão de voz, por exemplo, eram caros e estavam restritos a poucas empresas e pessoas. Hoje, esses mesmos recursos estão disponíveis na forma de programas, aplicativos de celular e plataformas gratuitas de hospedagem e compartilhamento de dados que podem ser acessados de casa, da escola ou no próprio smartphone.

Por conta disso, é perfeitamente possível a qualquer um – e especialmente interessante para professores e estudantes – criar peças ou programas sonoros focados em temas específicos e difundi-los pela internet ou em sistemas de som locais, como os de um colégio ou empresa, por exemplo.

No caso específico da escola, o professor pode entretecer esses recursos para criar, por exemplo, um programa de rádio digital no qual os alunos seriam responsáveis pela eleição das pautas e produção dos conteúdos, sempre a partir de uma orientação segura.

 1. CONTEXTO E VALOR PEDAGÓGICO

Programas de rádio ou podcasts podem ser usados em projetos paradidáticos, em atividades de contraturno ou, então, dentro da programação regular das disciplinas do Ensino Fundamental ou Médio. Esses programas são uma construção coletiva, isto é, eles fazem com que os estudantes construam o próprio conhecimento, orgulhem-se e se responsabilizem por ele. Programas de rádio são interdisciplinares – ao produzir um programa de Ciências, por exemplo, você também estará trabalhando com linguagem, com expressão oral, planejamento e gerenciamento, com pesquisa, com o domínio de técnicas e ferramentas, com a comunicação interpessoal e com expressões artísticas como a locução, a interpretação e a contação de histórias.

Observação importante: quando falamos em “rádio”, no contexto deste artigo, não estamos nos referindo às estruturas do rádio tradicional – antenas, estações repetidoras etc. -, mas à linguagem do rádio, que é construída a partir de um tipo de narrativa que abrange o relato e a transmissão de informações, o uso de sonoras (trechos de entrevistas), efeitos sonoros e músicas. A seguir, vamos esquematizar a produção de um programa de rádio ou de podcasts com finalidade educacional.

2. FORMATANDO UM PROGRAMA DE RÁDIO 01 – A LINGUAGEM

Um programa ou um podcast interessante precisa de uma identidade, um nome atraente e também vinhetas que o identifiquem no início, nos blocos intermediários (entre uma matéria ou tema e outro) e no fechamento. Na medida em que a abrangência desse programa é local – a escola não deve comercializar o produto, mas usá-lo como recurso pedagógico –, é possível utilizar trilhas disponíveis na própria internet (em sites como o Youtube), indicando a origem, o título e o intérprete.

Ao desenvolver os temas, leve em conta a linguagem própria do rádio: ao contrário do que ocorre na tevê ou no cinema, que também oferecem imagens, ela é feita para despertar a imaginação de quem escuta e gerar uma produção mental de imagens. É nisso, aliás, que reside a “magia” do rádio: sua mensagem nasce da interação entre o produtor primário, o produto primário e o receptor, que dá forma, cor e imagem mental ao que está ouvindo.

Se a sua opção é pela produção de reportagens – em um programa sobre a História local, por exemplo –, divida o trabalho da seguinte maneira:

1. Com base no seu planejamento, selecione os temas e as pautas com os alunos em uma “reunião de pauta” feita na escola. Você é o coordenador – indique o tema.

2. Os alunos devem pesquisar o tema, propor questões, sugerir nomes para entrevistas e apresentar esses materiais a você – e você deve participar dando outros esclarecimentos, sugerindo nomes, propondo outras questões e abordagens. Conduza o processo, em especial porque os alunos ainda não dominam essa forma de narrativa. FALAREMOS MAIS A RESPEITO EM ALGUNS PARÁGRAFOS, NO ITEM 4.

3. Entregue aos alunos uma ficha de autorização para a realização das entrevistas, que deve ser assinada pelos pais e devolvida a você.

4. Depois de levantar informações e fazer as entrevistas, os alunos terão material suficiente para produzir a sua narrativa – tenha em mente o fato de que eles estão contando uma história que possa ser ouvida por qualquer pessoa, em linguagem simples, usando frases curtas e precisas. Com base nos dados, eles vão escrever sua primeira reportagem em uma lauda. Nesse contexto, as sonoras servem para ilustrar o que eles estão afirmando. Vamos a um exemplo:

A HISTÓRIA DE VILA VELHA COMEÇA COM A CHEGADA, AINDA NO SÉCULO XVI, DE EXPLORADORES PORTUGUESES QUE FAZIAM A EXTRAÇÃO DE PAU-BRASIL E O PATRULHAMENTO DA COSTA CONTRA INVASORES FRANCESES. NA ÉPOCA, COMO EXPLICA O HISTORIADOR JOSÉ DE OLIVEIRA, OS CONTATOS ENTRE OS PORTUGUESES E OS INDÍGENAS ERAM DIFÍCEIS E, MUITAS VEZES, PERIGOSOS PARA AMBOS OS LADOS.

(SONORA 01 – HISTORIADOR) – “OS PORTUGUESES E OS ÍNDIOS…”

5. É importante lembrar que as sonoras – os trechos selecionados das entrevistas que serão incluídos nas matérias – não devem repetir o que já foi dito no texto da locução, mas realçar e trazer fatos novos, que construam a grande narrativa que é a própria reportagem.

6. Nas matérias é possível usar, também, recursos sonoros: se eu vou falar sobre as igrejas da minha cidade, posso abrir a reportagem usando o som dos sinos da matriz, por exemplo; se falo da composição do sabão (em uma matéria relacionada à Química), posso usar um trecho de “Ensaboa, Mulata”, de Cartola.

7. Selecionar as sonoras que serão editadas não é difícil. Basta escutar a entrevista marcando os pontos de início e encerramento de cada sonora. Exemplo: SONORA 01 – HISTORIADOR = DE 30” a 1’02”. Feita a marcação, é possível fazer os recortes em softwares específicos para isso (FALAREMOS MAIS A ESSE RESPEITO NO ITEM 3). Dê preferência a sonoras mais curtas, que ofereçam mais agilidade ao programa.

8. Além das matérias, é possível usar notas, que são textos mais curtos, construídos sem sonoras, em que só está presente a locução.

9. Lembre-se de que a linguagem de rádio deve ser de encantamento do ouvinte: para isso, é preciso trabalhar com os alunos a locução correta, que é uma leitura interpretada com mais emoção, entonação correta e voz emitida no volume correto. No início, os resultados provavelmente não serão tão bons – mesmo assim, eles já serão excelentes. Uma boa forma de preparar a locução é ouvindo rádio e percebendo como os repórteres e os âncoras (apresentadores) se expressam.

10. Por fim, é importante destacar uma figura-chave de todo programa: o âncora ou apresentador. É ele quem vai apresentar o programa, introduzir as reportagens, comentar, gerenciar o tempo e fazer o encerramento, chamando para a próxima edição. No começo, esse papel pode ser desempenhado pelo próprio professor ou por um aluno que demonstra mais facilidade para a missão. Ainda que muitos apresentadores ou âncoras improvisem, o melhor caminho é produzir um texto para a locução – isso facilita o trabalho e dá segurança à pessoa que apresenta.

3. FORMATANDO UM PROGRAMA DE RÁDIO 02 – AS TECNOLOGIAS DE GRAVAÇÃO E EDIÇÃO DE SONS:

Tendo conhecimento das diretrizes relacionadas à linguagem e à formatação editorial do programa de rádio, passamos à segunda etapa de produção, que é a relativa às tecnologias que permitem a construção do produto final. Para produzir nosso programa, precisaremos dos seguintes recursos:

1. Telefones celulares e/ou gravadores digitais. Com a difusão dos smartphones, ficou muito mais fácil e barato dispor de recursos de gravação de sons – os alunos poderão utilizar os próprios celulares.

2. Um computador pessoal ou tablet, que não precisa ser de última geração, acompanhado de um sistema de caixa de som simples.

3. Programas ou aplicativos para a captação de sons. Entre os aplicativos gratuitos disponíveis para gravação de som na plataforma Android estão o Tape Machine Lite Recorder, Easy Sound Recorder, Hi-Q MP3 Recorder (Lite) e AL Voice Recorder. Para a plataforma IOS, entre as opções estão os aplicativos IRecorder Pro, Tape a Call Lite (Pro) e Voice RecorderHD.

4. Programas ou aplicativos para edição de som. Um dos mais conhecidos e utilizados é o Audacity, que oferece muitos recursos e é gratuito. Duas apostilas completas para o uso do programa – que, aliás, é muito fácil – podem ser encontradas em http://migre.me/tw4vG (material produzido para o Portal do Professor, do MEC) e em http://migre.me/tw4zl.

5. Plataformas de gravação e compartilhamento de sons. A mais popular do mundo é a SoundCloud, que permite registrar e compartilhar podcasts (arquivos sonoros) gratuitamente. O registro é gratuito, bastando apenas associar a conta a um e-mail.

4. O PLANEJAMENTO E A EXECUÇÃO DO TRABALHO 

De posse desses recursos e depois de testá-los – ganhar familiaridade com esses programas é essencial, mas eles são fáceis de usar –, é chegada a etapa de planejamento do trabalho.

1. Vamos produzir podcasts ou um programa de rádio? Podcasts normalmente são mais curtos e podem ser publicados diariamente ou semanalmente. Produções do tipo programa de rádio, que reúnem mais de um assunto, são mais trabalhosos e podem ser pensador em termos, por exemplo, de atividade de médio prazo (bimestral).

2. Vamos trabalhar com que assuntos? É possível focar temas específicos das disciplinas ou, então, um programa de tipo jornalístico centrado, por exemplo, em temas da própria escola ou da cidade.

3. Como dividir as equipes? Uma forma é montar equipes semelhantes às das próprias rádios de jornalismo, em que temos repórteres que vão a campo, produtores encarregados do levantamento dos temas e do aprofundamento dos assuntos, e editores que serão responsáveis pela edição e montagem dos programas.

4. Como gerenciar o trabalho dos grupos? O professor responsável pelo projeto deve propor as ações – levantamento de temas e pautas, indicação de nomes e fontes, saídas para gravação das entrevistas e sons, edição, montagem e divulgação – e, semanalmente ou nos prazos ajustados, reunir o grupo para colocar mãos à obra. Aos poucos, mas dentro do planejado, o programa ganhará forma.

5. Depois que o programa ganhar forma – um modelo interessante é o composto pela vinheta de abertura + apresentação + inclusão das matérias + comentários + intervalo ou vinheta de fechamento – é interessante reunir a turma para uma escuta e para um relato das descobertas, das dificuldades e dos desafios. É importante que os alunos percebam seu papel em uma criação educacional coletiva.

6. A divulgação: depois de pronto, o programa poderá ser publicado na conta do SoundCloud aberta pelo professor, veiculado no sistema de som da escola, divulgado por e-mail para a comunidade escolar ou nas redes sociais da própria escola. Os ouvintes podem ser convidados a dar sugestões de pauta e a fazer críticas construtivas.

 5. OUTRAS FONTES DE CONSULTA E INSPIRAÇÃO

Selecionamos alguns links que podem ser muito úteis para o desenvolvimento de programas de rádio ou podcasts voltados à educação. Confira:

. “Como realizar um programa de rádio”, UOL Educação, disponível em http://migre.me/tBId6

. “Rádio Escolar”, artigo de Gabriela Vesce disponível em http://migre.me/tBIhQ

. “7 experiências em que o rádio vira educação”, artigo de Julia Dietrich disponível em http://migre.me/tBIk7

. “Guia de implantação de projeto de rádio escolar”, manual escrito por Carlos Alberto Mendes de Lima para a secretaria municipal de Educação de São Paulo, disponível em http://migre.me/tBInG

(*) – Sobre o Autor: Rodrigo Wolff Apolloni (rwapolloni@gmail.com) é jornalista, doutor em Sociologia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e professor de Radiojornalismo das Faculdades Opet, em Curitiba. É assessor de comunicação social da Editora Opet.

This entry was posted in Notícias. Destaque: . Bookmark the permalink. Both comments and trackbacks are currently closed.